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Uma pessoa feliz. Jornalista e escritora apaixonada. Mãe, dona-de-casa, curiosa, amiga e sempre uma aprendiz. Muito prazer!

Doidos por cinema

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Contrastes e contradições

Os contrastes no Brasil vão além do cenário moderno das capitais em contrapartida à pobreza das favelas e sertões. Vão além de crianças em carros blindados assistindo à infância abandonada nos faróis. Vão além, ainda, da distribuição de sentenças judiciais. Os contrastes e contradições encontram-se presentes no sentimento quanto à pátria amada/odiada brasileira.

Se, por um lado o povo deste país se diz sofrido com a impunidade e corrupção, por outro, não admite que se fale de nós. Não admite que "os outros" falem de nós. Exemplo disso é a reação maciça contra o filme "Turistas", que estreou nos Estados Unidos no início deste mês.

O filme mostra um grupo de jovens americanos que vem passar as férias no Brasil e é assaltado, torturado e vítima de uma quadrilha de tráfico de órgãos. A crítica norte-americana odiou o filme. Mais pela condução e técnica (ou a falta dela) do que pela trama. O brasileiro odiou o filme mesmo sem vê-lo.

O que não dá para entender é por que tanta fúria, já que somos os primeiros a nos desqualificar na tela grande. É rotina os filmes aqui produzidos retratarem a pobreza, o abandono, o sofrimento. Exemplos? Cidade de Deus, Central do Brasil e Caminho das Nuvens, para citar alguns conhecidos do grande público. O fato é que, a maioria absoluta dos filmes brasileiros, quando não retrata a miséria, mostra a prostituição, as drogas, o sexo... e só. Um dos mais recentes lançamentos, Anjos do Sol, é um retrato pesado de uma das nossas realidades mais brutais: a prostituição infantil. A violência contra as nossas crianças é presente em mais de mil e duzentos pontos, só nas estradas federais. O filme foi o vencedor do Kikito de melhor filme, em Gramado.

A verdade é que vivemos em um país de maltratados, porém coniventes. Somos um povo sofrido, que canta e dança no Carnaval, beija a bandeira na Copa do Mundo, aplaude a própria desgraça mas se choca quando se vê no espelho com moldura estrangeira.

Mais do que os contrastes, o que assusta é a hipocrisia diante da própria imagem.
(Leia também The truth is out there e Turistas na sessão da tarde. Este último, da minha grande mestra Júnia Turra.)

3 comentários:

Júnia Turra disse...

Mestre é aquele que está acima dos elogios, nao presta muita atencao a eles porque está concentrado em seu "fazer". Entretanto, enaltece o aprendiz para incentivá-lo a seguir em frente. Obrigada querida, mas mestre com todas as letras é você! Texto maravilhoso!

Fernando Menucci disse...

Há poucos dias, recebi um destes manifestos contra o polêmico filme. Li, observei, refleti e constatei que estava diante de mais um devaneio paranóico, típico da sociedade brasileira.

Os pontos de "Turistas" que foram ressaltados me pareceram, a princípio, totalmente adequados à nossa realidade. Criamos o cenário ideal para este tipo de trama.

Revoltado com a total falta de lucidez que comanda nossa mídia e, agora, nossos e-mails, comecei a sentir um nó na garganta. Sempre me sinto assim quando percebo que a corrente das opiniões à minha volta vão totalmente de encontro à minha. Pensei: "será que ninguém percebe que estamos sendo paranóicos?"

Foi aí que entrou em cena a minha querida amiga Érika. Com um belo texto, recheado da consciência que anda em falta nos quatro cantos deste país, ela veio me confortar. Neste blog, senti uma apaziguadora identificação. Foi ótimo dar de cara com estas palavras. Ainda mais quando são tão bem escritas, consolidando a firmeza do discurso.

Muito obrigado, minha amiga. Você desfez o incômodo nó que eu vinha sentindo. E parabéns pela qualidade de sempre.

CMN disse...

Gostei muito de suas observações...Continue postando!!!Um abraço.